Se você tem melasma, este artigo foi escrito pensando em você.
Melasma é uma das queixas mais frequentes no consultório dermatológico brasileiro. Estima-se que cerca de 15 a 35% das mulheres brasileiras em idade fértil tenham algum grau de melasma. É mais do que uma mancha: é uma condição que afeta autoestima, rotina e, muitas vezes, a relação da mulher com o espelho.
Se você já tentou de tudo -- cremes, ácidos, laser -- e a mancha sempre volta, saiba que isso não é culpa sua. Melasma é uma condição crônica que exige manejo contínuo, não cura mágica. E entender isso é o primeiro passo para parar de se frustrar e começar a cuidar de verdade.
O que é melasma?
Melasma é uma hiperpigmentação adquirida, crônica e recidivante, que aparece como manchas acastanhadas ou acinzentadas, geralmente simétricas, no rosto. As áreas mais afetadas são:
- Região malar (maçãs do rosto) -- o padrão mais comum
- Fronte (testa)
- Lábio superior (buço)
- Mandíbula
- Nariz
As manchas têm bordas irregulares mas bem demarcadas, são indolores e não coçam. Melasma não é perigoso do ponto de vista médico, mas o impacto na qualidade de vida é significativo -- estudos mostram que pacientes com melasma reportam níveis de impacto emocional comparáveis a outras doenças dermatológicas crônicas.
Por que o melasma aparece? As 4 causas principais.
1. Radiação ultravioleta (sol)
O sol é o principal gatilho do melasma. A radiação UV estimula os melanócitos (células produtoras de melanina) a produzirem pigmento em excesso. Mas aqui vai o detalhe que muda tudo: não é só o UVB. A luz visível (aquela que você vê a olho nu, inclusive a do celular e do computador) também ativa os melanócitos, especialmente em peles mais escuras (fototipos III a VI, que representam a maioria da população brasileira).
É por isso que protetor solar comum, que só bloqueia UVA/UVB, muitas vezes não basta para melasma. Protetores com óxido de ferro na fórmula bloqueiam também a luz visível e são os mais indicados.
2. Hormônios
Estrógeno e progesterona são gatilhos conhecidos. Melasma aparece ou piora com:
- Gravidez (melasma gravídico ou "máscara da gravidez" -- afeta até 70% das gestantes)
- Anticoncepcionais orais
- Terapia de reposição hormonal
Os hormônios aumentam a expressão de receptores nos melanócitos, tornando-os hiperreativos à luz. É como se o hormônio ligasse o volume e o sol apertasse o play.
3. Predisposição genética
Estudos mostram que mais de 40% das pessoas com melasma têm histórico familiar. A genética determina a sensibilidade dos seus melanócitos. Se sua mãe ou avó tiveram melasma, sua pele provavelmente carrega essa predisposição.
4. Inflamação e calor
Pesquisas recentes mostram que o componente vascular do melasma é mais importante do que se pensava. Calor localizado (cozinhar sobre fogão, exposição ao forno, exercício intenso ao sol) pode piorar o melasma mesmo sem radiação UV direta. A inflamação crônica de baixo grau na pele mantém os melanócitos ativos.
Os 3 tipos de melasma -- e por que isso importa para o tratamento.
Melasma epidérmico
A melanina está depositada nas camadas mais superficiais da pele. Manchas com cor mais definida, marrom-escuro. Responde melhor a tratamentos tópicos. É o tipo com melhor prognóstico.
Melasma dérmico
A melanina migrou para a derme, camada mais profunda. Manchas com tom acinzentado ou azulado. Mais resistente a tratamentos tópicos, pois o pigmento está mais "enterrado". Exige paciência e abordagem combinada.
Melasma misto
Combinação dos dois anteriores. É o tipo mais comum na prática clínica. Parte responde bem ao tratamento, parte é mais teimosa.
A lâmpada de Wood e a dermatoscopia ajudam o dermatologista a identificar o tipo. Essa classificação orienta a estratégia de tratamento -- por isso a consulta é insubstituível.
Tratamentos que funcionam -- com evidência.
1. Protetor solar com cor (a base do tratamento)
Não é exagero: protetor solar é o tratamento mais importante do melasma. Sem proteção solar adequada, nenhum outro tratamento funciona. E para melasma, o protetor ideal tem:
- FPS 30 ou mais (idealmente 50+)
- Óxido de ferro na fórmula (proteção contra luz visível)
- Reaplicação a cada 2 horas em exposição direta ao sol. Quantidade certa: 1,2 mL, o equivalente a dois dedos cheios para o rosto
2. Hidroquinona
O padrão-ouro para clareamento de melasma há décadas. Inibe a tirosinase, enzima que produz melanina. Concentrações de 2% a 4% são as mais usadas. Funciona, mas tem regras: uso por ciclos (geralmente 3-4 meses), pausa obrigatória, e acompanhamento dermatológico por causa do risco de ocronose (escurecimento paradoxal) em uso prolongado.
3. Ácido tranexâmico
O "novo protagonista" do melasma. Pode ser usado via oral (250mg, 2x/dia) ou tópico (2-5%). Atua na via inflamatória e vascular do melasma, reduzindo a produção de melanina por um caminho diferente da hidroquinona. Estudos brasileiros e asiáticos mostram resultados animadores, especialmente quando combinado com protetor solar e clareadores tópicos.
4. Ácido azelaico 15-20%
Anti-inflamatório, clareador e seguro para uso prolongado. Uma das melhores opções para gestantes com melasma. Eficácia comparável à hidroquinona 2% em alguns estudos, com perfil de segurança superior.
5. Vitamina C tópica
Antioxidante que inibe a tirosinase por outra via. Não é tão potente quanto hidroquinona sozinha, mas é excelente como adjuvante e para manutenção. Segura para uso prolongado.
6. Retinoides tópicos
Tretinoína 0,025-0,05% acelera o turnover celular, dispersando o pigmento. Geralmente usada em combinação com hidroquinona e corticoide (a clássica "fórmula de Kligman"). Irritante -- precisa de introdução gradual.
O tratamento do melasma começa na trindade — limpeza, hidratação e proteção solar. No melasma, a proteção solar é o pilar: sem ela, nenhum clareador funciona de verdade.
O que NÃO funciona (ou piora).
Laser sem critério
Laser pode ser aliado no melasma, mas mal indicado pode piorar dramaticamente. Laser ablativo agressivo em melasma ativo = rebote pigmentar. Se algum profissional oferecer laser como "solução definitiva" para melasma, desconfie. Lasers fracionados de baixa energia (como o 1064nm Q-switched em toning) podem ajudar em casos selecionados, mas sempre como parte de um protocolo, nunca isolados.
Peelings profundos em pele escura
Peeling químico pode ajudar no melasma epidérmico, mas peelings profundos em fototipos mais escuros têm risco alto de hiperpigmentação pós-inflamatória -- ou seja, trocar uma mancha por outra.
Exposição solar "com protetor"
Protocolos que incluem praia, piscina e sol direto, mesmo com protetor reaplicado, são incompatíveis com tratamento de melasma ativo. O protetor reduz, mas não elimina a estimulação dos melanócitos.
Receitas caseiras
Limão, bicarbonato, água oxigenada, vinagre: nenhum desses tem evidência para melasma e todos têm potencial para causar irritação, queimadura química ou fotossensibilização.
Prevenção e manutenção: o que você pode fazer todos os dias.
- Protetor solar com cor, todos os dias. Mesmo dentro de casa, mesmo no inverno, mesmo nublado. A luz visível atravessa vidro e nuvem.
- Chapéu de aba larga quando ao ar livre. Reduz em até 50% a radiação que atinge o rosto.
- Evitar calor direto no rosto. Afaste-se do fogão, use protetor térmico.
- Manter rotina de clareamento com ativos seguros para uso prolongado (vitamina C, niacinamida, ácido azelaico).
- Consultas regulares com dermatologista para ajustar o protocolo conforme a resposta da pele.
Melasma tem cura?
Vou ser honesta: melasma não tem cura definitiva. Tem controle. Tem melhora significativa. Tem épocas em que a mancha quase desaparece. Mas a predisposição está no seu DNA, e gatilhos como sol e hormônios estarão sempre presentes.
Isso não significa que não vale a pena tratar -- muito pelo contrário. Com o protocolo certo, proteção solar rigorosa e acompanhamento profissional, é possível manter o melasma em níveis que não impactam sua vida.
A chave é trocar a expectativa de "curar" pela estratégia de controlar com inteligência. E isso, eu garanto, funciona.
E o protetor solar em cápsula, funciona?
O protetor solar oral não é um protetor que você engole. Ele não bloqueia o sol e não tem FPS. O que ele faz é ajudar a pele a se defender por dentro, neutralizando parte dos radicais livres e reparando parte do estrago que a luz causa. Por isso ele é sempre um reforço, um coadjuvante, nunca o titular. Quem troca o protetor de passar pelo de tomar está trocando uma proteção comprovada por um apoio modesto, e sai no prejuízo. Cápsula é reforço, não escudo.
O ativo mais estudado é o Polypodium leucotomos, um extrato de samambaia com ação antioxidante. No melasma, quando somado ao protetor solar e ao tratamento de pele, ele ajudou a melhorar a mancha em estudos. Sempre como apoio, nunca sozinho.
A nicotinamida oral, uma forma da vitamina B3, tem a evidência mais forte em outro cenário: reduzir o aparecimento de câncer de pele em pessoas que já tiveram vários. Não é um protetor do dia a dia para todo mundo. E não confunda com a niacina, que é diferente e dá aquela sensação de calor e vermelhidão no rosto.
Os carotenoides, como o betacaroteno, dão um aumento pequeno e inconstante da defesa da pele, e também não substituem o protetor. Um alerta importante: betacaroteno em suplemento não é indicado para quem fuma, porque grandes estudos associaram essa combinação a mais risco de câncer de pulmão.
Em resumo, a base do controle do melasma continua sendo a trindade, com destaque para a proteção solar de passar na pele. O protetor oral entra só como reforço, e sempre vale conversar com a sua dermatologista antes, ainda mais na gravidez.
Tem clareador que se toma? O tratamento por boca
Existe, sim, tratamento de clareamento por boca, mas ele é coadjuvante. A base do tratamento do melasma continua sendo a fotoproteção rigorosa, inclusive contra a luz visível, somada aos ativos que você passa na pele. O comprimido entra como reforço em casos moderados a graves, e nunca sozinho, por conta própria ou para a vida toda. E vale lembrar: melasma não tem cura, tem controle.
O mais consolidado é o ácido tranexâmico oral. Curiosamente, é um remédio conhecido por outra função, ajudar o sangue a coagular. No melasma ele age por outro caminho: diminui o estímulo exagerado que a luz provoca nas células que produzem o pigmento e reduz o componente de vasinhos da mancha. Nos estudos, a dose usada é baixa, bem menor que a usada para conter sangramento, e o efeito é bom quando ele é somado ao protetor e ao tratamento de pele. A dose certa e o tempo de uso quem define é o médico que acompanha.
Aqui entra o cuidado mais importante. Como é um remédio que ajuda o sangue a coagular, existe a preocupação com a trombose, que é a formação de um coágulo que entope um vaso, nas pernas ou no pulmão. Nas doses baixas do melasma, os estudos mais recentes não vêm encontrando aumento desse risco, o que é tranquilizador, mas não é um passe livre. Por isso o tranexâmico oral não é para qualquer pessoa e exige avaliação médica antes. Merecem atenção especial quem já teve trombose, quem tem tendência de família a formar coágulos, quem usa anticoncepcional de maior risco, fumantes, gestantes e lactantes, e quem tem câncer em atividade. É um uso fora da bula original, chamado off-label, bem estudado e aceito na dermatologia, mas que precisa ser decisão e acompanhamento do seu médico.
A glutationa oral, muito vendida com promessa de clarear a pele, é o oposto em termos de prova: a evidência é fraca e inconsistente. Quando aparece, o efeito é discreto e não dura. Não dá para tratar como solução.
Já o Polypodium leucotomos e o Pycnogenol, que é o extrato da casca do pinheiro, têm papel adjuvante leve, ajudando a proteger a pele por dentro contra o estímulo da luz. Reforço, não tratamento principal.
A frase que resume tudo: nenhum comprimido segura o melasma sozinho, sem proteção solar. Começa sempre pela trindade.
Referências
- Chen AC et al. Nicotinamide for Skin-Cancer Chemoprevention (ONTRAC). New England Journal of Medicine. 2015.
- Ahmed AM et al. Oral Polypodium leucotomos extract as an adjunct to sunscreen in melasma. JAMA Dermatology. 2013.
- Martin LK et al. Oral Polypodium leucotomos as an adjunct to sunscreen in melasma. JAMA Dermatology. 2014.
- Optimal dose of oral tranexamic acid in melasma: network meta-analysis. Indian Journal of Dermatology, Venereology and Leprology. 2023.
- Oral tranexamic acid for melasma is not associated with thromboembolism. JAAD International. 2025.
- Sarkar R, Yadav S. Glutathione in melasma: systematic review. International Journal of Dermatology. 2025.
- Lima PB et al. Pycnogenol with triple combination cream for facial melasma. JEADV. 2021.
- Ni Z et al. Treatment of melasma with Pycnogenol. Phytotherapy Research. 2002.
Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta dermatológica. Cada pele é única e merece um plano personalizado.
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